Uma expressão superior de arte (da guerra)
Ano passado, na esteira da indicação para o Oscar, a atriz Fernanda Torres disse em uma entrevista que considera os memes “uma expressão superior de arte”. Eu também acho. Mas quando eram a várzea do humor rasteiro, tosco e original. A coisa complicou um bocado quando a várzea virou lama.
E não foi acidental. Como instrumento de propaganda, os memes também se tornaram uma expressão sofisticada de ideias com pretensa aparência amadora. Há intenção, esse é o ponto. A diagramação ruim, o formato mal acabado e o tom escrachado mascaram a sutileza para endereçar uma mensagem que passa despercebida à medida que seus receptores estão anestesiados pelo riso, pela bizarrice ou desatentos pelo desleixo das publicações.
Em tempos de atenção dispersa, um recorte de tom categórico é o que cabe no pequeno espaço disponível para se receber algo. Rolando a tela do seu feed, a cidadã distraída e desinteressada em análises de qualquer tipo, engole o que lhe chega. Quando a mensagem é simplificada a ponto de ser digerida numa pequena cápsula de entretenimento, ocorre um achatamento da comunicação que deixa de lado o que, no fundo, mascara.
Há um elemento adicional de complexidade nesse processo: em geral, o conteúdo chega através de reposts ou encaminhamentos. Mesmo que governos e suas agências os criem e disseminem, é de pares que nos chegam memes. Se existe cada vez menos uma mídia de massa, cada vez mais existem as massas como mídia. Não necessariamente como produtores, mas como vetores de informação para suas redes. O ambiente fragmentado das redes cria a percepção equivocada de que se trata de uma comunicação hipersegmentada.
Paradoxalmente, o aparente amadorismo torna a mensagem mais confiável. E os memes refletem essa condição balizando por baixo. É superficial, simplista e bidimensional a ponto de não oferecer qualquer ruído para ser assimilado e potencialmente distribuído sem restrições.
Está mais para uma guerrilha informacional do que para guerra. Nesse campo, nossos grupos de WhatsApp, veículos de mídia e redes sociais são plataformas de disputa e controle de pauta.