o que faz alguém a se levantar quando todos se calam?
À primeira vista, Mércia não parecia destinada a se tornar uma heroína da luta contra a opressão. Mas, de caso em caso, de família em família, ela foi se envolvendo em algo muito maior.
A direção de Yara Novaes parece ter compreendido que é justamente essa a voz que precisamos ouvir em tempos de chantagem trumpista: a voz dos prisioneiros, dos torturados e dos desaparecidos, que corre o risco de ser esquecida e enterrada por versões remixadas dos anos 1970, que pintam o período como era de ouro da ordem e do progresso.
Quando batem os ventos de um novo autoritarismo, mais uma vez alimentado por forças internas e externas, essa voz retorna na potência de Andrea Beltrão.
Quando assisti à peça, lembrei-me do Museu do Aljube, em Lisboa, um marco da memória da Revolução dos Cravos e da libertação do povo português de seu líder napoleônico, Salazar. No fim da visita, qualquer um pode levar cópias dos arquivos de tortura e prisão, com os nomes dos perseguidos.
Diante do vasto número de vítimas, precisamos do nome concreto e objetivo, para que cada indivíduo seja real perante a massa anônima de desaparecidos.
Andréa Beltrão e Marieta Severo são duas heroínas que hoje dirigem teatros no Rio de Janeiro (Poeira e Poeirinha). A peça “Lady Tempestade”, como tantas outras iniciativas culturais, enfrenta o efeito “ventos passados ainda movem moinhos”.