Jornal italiano deixa IA assumir o controle de uma edição – 27/03/2025 – Tec

Um pequeno jornal italiano está usando inteligência artificial para produzir sua mais nova edição como parte de um experimento que, segundo ele, foi projetado para soar o alarme sobre o futuro do jornalismo.

O Foglio AI é uma criação de Claudio Cerasa, editor do jornal diário italiano de centro-direita Il Foglio, que disse tê-lo criado para explorar as capacidades e limitações da IA (inteligência artificial) —e como uma espécie de chamado às armas para os jornalistas. Sua mensagem? Os jornalistas devem produzir mais reportagens e textos originais para diferenciar seu trabalho dos modelos de linguagem de grande escala, como o ChatGPT, que alguns acreditam que poderiam eventualmente substituí-los.

“É como um grande teste de estresse fantástico para entender não apenas o que a IA pode fazer, mas o que os jornalistas terão que fazer no futuro para serem melhores que as máquinas”, disse Cerasa.

Alguns críticos levantaram preocupações e questionaram se isso não seria apenas um golpe publicitário. Eles dizem que o experimento, que ocorre enquanto organizações de mídia ao redor do mundo lidam com questões sobre como usar ferramentas de IA de forma responsável e transparente, corre o risco de confundir os leitores e expô-los a textos e reportagens de baixa qualidade, contribuindo para a crescente desconfiança no jornalismo.

Em uma coluna de humor publicada no Politico Europe, Giulia Poloni escreveu que o Il Foglio estava “brincando com fogo moral no pior momento possível da história”.

Cerasa disse que a ideia de integrar IA ao Il Foglio começou a tomar forma há cerca de um ano. O jornal passou a publicar um artigo por semana escrito por IA, sem divulgar isso, e pediu aos leitores que adivinhassem qual artigo havia sido gerado por IA. Aqueles que acertassem seriam convidados a assinar o Il Foglio e ganhar uma garrafa de champanhe grátis. Cerasa disse que a maioria dos leitores acertou e ficou “entusiasmada” com o experimento. Os casos em que os leitores erraram o convenceram de que o trabalho de seus escritores era comum demais, não criativo o suficiente, e que o Il Foglio precisava “melhorar nosso jornalismo”, afirmou.

Há cerca de dois meses, Cerasa teve a ideia de lançar uma edição limitada inteiramente escrita por IA e fez testes inserindo prompts no ChatGPT Pro. Todos os dias, na última semana, Cerasa pediu ao ChatGPT que produzisse artigos sobre um tema específico e o instruiu a seguir a linha editorial do Il Foglio — que Cerasa descreve como pró-europeia, pró-globalização e antipopulista.

Longe de produzir conteúdo equiparável ao de um humano, Cerasa disse que o ChatGPT gerou artigos com erros factuais ou de digitação, inventou eventos que nunca aconteceram e produziu textos monótonos e sem frescor. Sua solução: designar dois jornalistas (humanos) para verificar os fatos dos artigos antes de serem publicados no Foglio AI. Notícias falsas são removidas, mas erros menores e escrita ruim são mantidos, disse ele, porque acredita que isso mostra as limitações da IA.

Além do nome da publicação, há vários avisos aos leitores de que o conteúdo do Foglio AI não é escrito por humanos, incluindo a frase “texto feito com IA” onde normalmente estaria o nome do autor. E Cerasa tem acompanhado publicamente o progresso do experimento. Mas a edição não alerta os leitores de que o conteúdo gerado por IA que eles leem pode ser impreciso ou pouco original.

Por exemplo, um artigo sobre “situationships” publicado na edição de 17 de março do Foglio AI copiou trechos de um artigo que apareceu no The Atlantic em 10 de março. Cerasa disse que pediu ao ChatGPT para basear seu artigo no texto do Atlantic, mas tentar “adicionar algo mais” sobre o tema dos jovens e o romantismo. “No entanto, a IA não conseguiu fazer isso e basicamente fez um copiar e colar. Este é um dos casos em que a IA funciona mal”, disse ele.

Cerasa afirmou que planeja divulgar este exemplo aos leitores e outros casos em que o experimento deu errado quando ele terminar, em 11 de abril, e convidar os leitores a analisar os erros da IA.

O jornalista italiano Gianni Riotta elogiou o experimento do Il Foglio como ousado em um país que nem sempre esteve aberto a inovações tecnológicas. A autoridade italiana de proteção de dados foi a primeira entre os países ocidentais a banir o ChatGPT quando ele foi lançado, citando preocupações com privacidade. (A decisão foi posteriormente revertida.) Ele disse que alguns artigos do Foglio AI eram desajeitados, mas que provavelmente isso ocorria porque os prompts precisavam “ser mais refinados”.

“Se você direcionar a máquina melhor, ela escreverá tão bem quanto humanos. Até melhor”, disse ele.

Charlie Beckett, especialista em IA no jornalismo da London School of Economics and Political Science, disse que usar IA para criar conteúdo editorial sem barreiras traz muitos riscos, incluindo publicar informações imprecisas ou sensacionalistas. Ele disse que redações ao redor do mundo já começaram a experimentar IA, inclusive para automatizar tarefas monótonas como transcrever entrevistas ou filtrar pilhas de comunicados de imprensa. Mas a ideia de “criar conteúdo original, especialmente do zero… é realmente perigosa”, afirmou.

Por isso, Beckett não acredita que o Foglio AI represente “o futuro”. O futuro das redações, acredita ele, é aquele em que mais trabalho será “assistido por IA”, com certos serviços como chatbots de notícias entregues inteiramente por IA, mas essas iniciativas serão “baseadas no julgamento editorial humano”, com jornalistas teoricamente liberados para fazer mais reportagens originais.

O próprio Foglio AI chegou a uma conclusão semelhante: ao final de sua primeira semana de publicação, Cerasa pediu ao ChatGPT que avaliasse seu próprio trabalho. O artigo resultante afirma que “a inteligência artificial pode escrever bem”, mas que “escrever bem ainda não é jornalismo”.

“No entanto, o experimento foi bem-sucedido exatamente por ser um experimento”, continuou. “Não é um jogo, nem marketing (ou não apenas), mas uma questão colocada aos leitores, jornalistas, editores e à política cultural italiana: o que resta do jornalismo se removermos o nome do autor? O que um jornal se torna se for inteiramente o produto de uma máquina de linguagem treinada, incluindo supervisão humana?”

Beckett disse que o experimento do Il Foglio destaca o fato de que os jornalistas devem se manter em um alto padrão de precisão e originalidade. “É fácil zombar [da IA] por alguns erros, mas, sabe, eu encontro distorções e imprecisões na mídia mainstream todos os dias”, disse Beckett.

“Espero que o AI Foglio, de certa forma, seja um alerta para fazermos melhor”, acrescentou ele.

Visto primeiro na Folha de São Paulo

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