Ex-malhação e best seller: veja protestos contra IA – 11/03/2026 – Tec

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Ao redor do mundo, há pelo menos 107 mobilizações de profissionais criativos reivindicando limites e justiça no desenvolvimento de inteligência artificial, segundo levantamento inédito da Universidade de Toronto divulgado na terça-feira (10).

O estudo inclui jornalistas, designers e artistas. No Brasil, uma das referências é o ator Fábio Azevedo, que protagonizou Malhação em 2000 e deu voz a personagens do cinema, como as versões brasileiras do Dr. Estranho e da Fera, de A Bela e a Fera. Ele é o atual presidente da Associação Brasileira de Dubladores (Dublar.BR), que já reuniu 100 mil assinaturas para pedir restrições no uso de IA na tradução de filmes sob o slogan “Dublagem Viva”.

Entre as mobilizações estão campanhas como a Dublagem Viva, formação de entidades, greves, boicotes e até processos judiciais contra empresas que lideram o campo da IA generativa —o principal exemplo é o litígio dos escritores contra a Anthropic, a desenvolvedora do Claude.

A finalidade desses movimentos é diversa. A Dublagem Viva pede para proibir o uso de IA em diálogos em outros idiomas que são traduzidos para o português com a voz original.

“Hoje, as propostas de usar IA na dublagem, seja para fazer o que a gente chama de paisagem sonora, seja para traduzir vozes, já está na mesa dos estúdios —e o preço é outro, inviabiliza nosso trabalho”, diz Azevedo. A qualidade, diz ele, tem uma queda indiscutível.

“É essencial preservar a expressão vocal, emoção e interpretação artística que os profissionais trazem para o processo de dublagem. A tecnologia deve ser vista como uma ferramenta complementar, não como um substituto”, diz o manifesto assinado por mais de 100 mil pessoas.

Outro grupo brasileiro na lista é a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), que milita pela aprovação do PL 2338/2023, que propõe um arcabouço regulatório para a tecnologia, incluindo um sistema de microrremuneração pelo uso de obras protegidas por direito autoral no desenvolvimento de IA.

Representando os ilustradores, a União Democrática dos Artistas Digitais levanta reivindicações similares desde 2022.

As empresas de IA americanas têm argumentado que pegar materiais protegidos da internet para desenvolver chatbots é “uso justo”, quando não é preciso pagar; elas defendem que os robôs não reproduzem conteúdo das obras e sim entregam algo transformado, como um humano faria. Elas também pleiteiam uma leitura dos direitos autorais mais permissiva, que não freie a inovação no setor.

“Desde que estourou a greve dos roteiristas de Hollywood, eu digo que os trabalhadores da cultura, das artes e da comunicação estão na linha de frente dessa batalha da IA generativa”, diz Rafael Grohmann, professor de estudos de mídia da Universidade de Toronto que coordenou a pesquisa.

No Brasil, audiências públicas do Congresso sobre o tema colocaram, de um lado, empresas de tecnologia e, de outro, artistas conhecidos como Marisa Monte, Frejat e Denise Fraga.

Nos Estados Unidos, trabalhadores também confrontam empresas de tecnologia. Uma das 18 mobilizações citadas no estudo é uma ação coletiva de escritores contra a criadora do ChatGPT. O autor da saga “Game of Thrones”, George R.R. Martin é um dos litigantes contra a empresa de IA.

Grohmann diz que os grupos ligados à dublagem e à produção audiovisual devem estar superrepresentados no resultado. Isso porque a pesquisa dele tem foco em dublagem. A orientanda dele, por sua vez, pesquisa como a IA muda a rotina dos trabalhadores de cinema e televisão. É ela, Helena Wright, que assina como principal autora do trabalho.

A base de dados até agora lista grupos ligados a artes visuais, música, videogames, dublagem, cinema, televisão, jornalismo e mercado editorial. No total, 30 países estão representados.

O levantamento é parte de uma pesquisa mais ampla sobre a influência que os trabalhadores têm no controle e na governança da inteligência artificial. “Ainda estamos no escuro, quase não há informação sobre o assunto”, afirma o professor.

Os grupos foram identificados “na unha”, como diz Grohmann, iniciando em buscas no Google. Helena fez testes em vários idiomas. Caso encontrasse notícias, procurava representantes do movimento e pedia evidências sobre a mobilização.

O método tem limitações, reconhece Grohmann. Na África, por exemplo, onde se concentram importantes sindicatos ligados ao trabalho e à inteligência artificial por causa da exploração de trabalho barato na análise braçal de dados, houve poucos resultados. “Não sabemos se foi por uma limitação linguística.”

Visto primeiro na Folha de São Paulo

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