Apple é denunciada por ouvir ‘coisas íntimas’ e coletar dados via Siri

“É um projeto que requer muita mão de obra”, disse o analista de dados para a Radio France. “Trabalhei em um grande open space onde devia haver pelo menos 80 pessoas, com um novo lote de 10 a 20 funcionários chegando toda segunda-feira. No total, havia centenas de ‘Siri graders’ ou ‘avaliadores de Siri’ empregados na cidade”, estima Le Bonniec.
“No mesmo dia em que cheguei, nos explicaram que iríamos trabalhar em gravações de pessoas falando com seu assistente Siri ou em gravações capturadas sem o conhecimento delas, quando a máquina era acionada por engano”, continua o denunciante. “Isso consistia em verificar se as transcrições das conversas da Siri estavam corretas ou se precisavam ser corrigidas. Uma grande parte do nosso trabalho era principalmente identificar se eram gravações acidentais, ‘accidental trigger’ (gatilhos acidentais), no jargão da Apple.”
O ex-empregado da empresa afirma que tinha uma obrigação de quantidade e de qualidade e que processava projetos de 1.300 registros por dia com um limite de precisão de pelo menos 90%.
Alguns empregados são responsáveis por etiquetar as palavras-chave ditas durante uma gravação e vinculá-las aos dados armazenados nos dispositivos dos usuários, como contatos, geolocalização, música, filmes, marcas, aos quais têm acesso. “Eles rotulam esses dados pessoais com palavras-chave. Para a gravação ‘ligar para a mãe’, por exemplo, meus colegas tiveram que procurar por ‘mãe’ nos contatos do dispositivo e rotulá-lo. Esse trabalho de marcação manual deveria melhorar o reconhecimento dos comandos usados pela Siri e acionar as ações apropriadas nos dispositivos, como ligar para o contato certo”, explica.
Conversas íntimas
Durante o tempo que trabalhou na GTS, Thomas e seus colegas ouviram uma quantidade considerável de gravações acionadas por engano, onde os usuários falavam sobre suas vidas privadas sem saber que estavam sendo gravados.