San Francisco (EUA) e Nova York
|Financial Times
As big techs estão ampliando o uso de garantias para respaldar dívidas destinadas a data centers de IA e chips, assumindo até US$ 300 bilhões (R$ 1,54 trilhão) em compromissos em menos de um ano, ao mesmo tempo que registram pouca coisa dessa exposição em seus balanços.
Usadas pela primeira vez pela Meta em um enorme projeto de data centers no ano passado, as chamadas garantias de valor residual foram adotadas pela Broadcom —como parte de seu acordo de financiamento de chips para a Anthropic— e pela Nvidia —para oferecer suporte à OpenAI e a outros clientes que compram seus chips.
Esses acordos, nos quais empresas de tecnologia garantem um valor futuro mínimo para chips ou data centers, somam-se a um conjunto crescente de estruturas criativas de financiamento adotadas pelas gigantes do setor para acelerar o boom da infraestrutura de IA. Segundo análise do Financial Times, as big techs ofereceram até US$ 300 bilhões nessas garantias somente nos últimos 12 meses.

Sede da Nvidia em Santa Clara, nos EUA; empresa está ampliando uso de garantias de valor residual junto de outras big techs
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Benjamin Fanjoy – 26.ago.26/Getty Images via AFP
Banqueiros descrevem as garantias como “eficientes do ponto de vista do balanço”. Elas normalmente dão respaldo a dívidas emitidas não pelas próprias empresas de tecnologia, mas por veículos de propósito específico que detêm a infraestrutura, permitindo que os grupos de tecnologia emprestem sua solidez financeira aos negócios sem precisar contabilizar integralmente os passivos.
O aumento das garantias acrescenta uma camada de exposição caso a aposta de vários trilhões de dólares das big techs em IA não dê retorno devido a um uso abaixo das expectativas, ao excesso de oferta de capacidade computacional ou ao fracasso na criação de modelos de negócios sustentáveis em torno da tecnologia.
“Houve uma expansão significativa da exposição extrapatrimonial no último ano”, afirmou Doug Colandrea, diretor sênior da agência de classificação de risco KBRA. “Isso acrescenta um grau muito elevado de complexidade aos perfis de risco de crédito dessas empresas”.
À medida que seus planos de gastos com IA começam a superar seus fluxos de caixa, as empresas de tecnologia passaram a se concentrar mais na gestão de seus balanços para preservar suas classificações de crédito de grau de investimento e manter o acesso às maiores fontes de dívida corporativa de baixo custo.
No total, analistas do Morgan Stanley contabilizaram mais de US$ 3,1 trilhões (R$ 15,95 trilhões) em compromissos extrapatrimoniais e suporte de crédito concedidos por sete hiperescaladores e fabricantes de chips.
“Há preocupação com todos esses compromissos futuros porque todos estão numa corrida para obter capacidade computacional”, comentou Tim Musial, chefe de renda fixa da CIBC Private Wealth US.
Para os credores, as garantias de valor residual oferecidas pelas gigantes de tecnologia ajudam a aliviar as preocupações com a rápida obsolescência da tecnologia atual, enquanto eles desembolsam dezenas de bilhões de dólares para financiar data centers de IA e chips.
As empresas de tecnologia concordam em cobrir déficits específicos caso esses ativos precisem um dia ser vendidos ou realugados e alcancem valor inferior a um mínimo garantido.
A introdução dessas garantias no financiamento de IA viabilizou crédito mais barato para os projetos beneficiados, cujas taxas normalmente ficam apenas entre 1% e 1,5% acima das cobradas na dívida da própria garantidora, segundo pessoas a par do assunto.
A Broadcom foi a primeira fabricante de chips a adotar as garantias neste ano, assumindo uma exposição de US$ 29 bilhões (R$ 149,21 bilhões) em junho para vender 1 gigawatt (GW) em chips a um veículo de propósito específico que os arrendará à Anthropic.
A garantia faz parte de um programa de financiamento de fornecedores elaborado pela Broadcom e pelo Google para fornecer chips ao laboratório de IA.
O recente balanço trimestral da Broadcom mostrou que o suporte de crédito teve pouco impacto sobre seu próprio balanço. Pessoas a par do assunto disseram que a fabricante de chips provavelmente ofereceria garantias para ajudar a financiar parte das entregas de chips previstas para o próximo ano, que incluíam outros 5 GW deste produto para a Anthropic, além de 1,3 GW em semicondutores personalizados para a OpenAI.
A empresa disse aos investidores que “a forte trajetória de rentabilidade dos principais laboratórios de IA de fronteira e o valor duradouro dos ativos subjacentes” significavam que havia baixa probabilidade dessas garantias precisarem ser utilizadas.
No mês passado, a Nvidia, rival da Broadcom, revelou um programa semelhante de financiamento de fornecedores.
A fabricante de chips afirmou que poderia oferecer suporte de valor residual de até 25% em operações estruturadas pelo Goldman Sachs e por um grupo de investidores de Wall Street que pretendem reunir, em conjunto, US$ 500 bilhões (R$ 2,57 trilhões) em capital para infraestrutura de IA equipada com tecnologia da Nvidia.
A Nvidia também concedeu US$ 105 bilhões (R$ 540,23 bilhões) em garantias à SB Energy, subsidiária do SoftBank que está construindo um enorme complexo de data center em Ohio (EUA) para a OpenAI.
A companhia liderada por Jensen Huang não registrará nenhum passivo em seu balanço até o início dos contratos de arrendamento da OpenAI, em 2028, e, portanto, a estrutura das garantias limitará seu peso nas contas da empresa.
Em troca, o complexo usará exclusivamente equipamentos da Nvidia durante 20 anos. Banqueiros do Morgan Stanley e do Goldman Sachs foram fundamentais na estruturação dos acordos.

Data center construído pela Meta em El Paso, nos EUA
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Brandon Bell/Getty Images via AFP
“[As garantias de valor residual] têm um mecanismo contratual claro pelo qual o ativo precisa ser monetizado por meio de um processo competitivo de venda, e o valor desse ativo é então deduzido de qualquer exposição decorrente da garantia”, avaliou Richard Myers, chefe de mercados de capitais para produtos estruturados do Morgan Stanley, que introduziu esse tipo de contrato na infraestrutura de IA.
Como a garantidora cobre apenas a diferença entre o preço de venda e o valor garantido, as garantias de valor residual “recebem um tratamento mais eficiente no balanço do que uma garantia de pagamento típica”, afirmou.
A Meta foi o primeiro conglomerado do setor a adotar essa configuração de financiamento de IA, concedendo uma garantia de valor residual de US$ 28 bilhões para respaldar sua joint venture com a Blue Owl no desenvolvimento do data center Hyperion, de 2 GW, na Louisiana (EUA).
O projeto ocupa 4 milhões de pés quadrados (371 mil metros quadrados) e deverá entrar em operação até 2030, consumindo energia suficiente para abastecer o equivalente de 1,5 milhão de residências.
“Ter data centers próprios e capitalizá-los no balanço exige um volume muito grande de capital”, afirmou Myers, que passou meses elaborando a estrutura de garantias para que a Meta pudesse desfrutar de alguns dos benefícios da propriedade sem arcar com todo o ônus no balanço.
As garantias acabaram ajudando a captar US$ 27 bilhões (R$ 138,92 bilhões) em dívida para o data center, a uma taxa menos de 1,5% acima dos títulos da própria Meta, com pouca exposição registrada nos livros contábeis da empresa. O grupo de tecnologia usou uma estrutura semelhante em julho para respaldar um data center de 1 GW que está sendo construído em El Paso (EUA).
Embora as garantias sejam em sua maioria extrapatrimoniais, as agências de classificação de risco afirmam que fazem ajustes nos indicadores de alavancagem dos grupos de tecnologia para refletir esses compromissos.
Analistas da S&P afirmam que acrescentam o montante pelo qual o valor garantido supera sua própria estimativa do preço que os data centers ou os chips alcançariam em uma venda sob condições adversas.
Pierre Georges, chefe de pesquisa de infraestrutura da S&P Global, disse que a maior diferença que havia observado entre o valor sob estresse e a dívida em qualquer operação com garantia de valor residual era de cerca de 25%, o que, em uma estrutura de US$ 20 bilhões (R$ 102,9 bilhões), acrescentaria um ajuste de alavancagem de aproximadamente US$ 5 bilhões aos passivos da garantidora.
Especificamente no caso da Meta, Georges afirmou que a S&P aplicou uma “redução grande” à avaliação do data center Hyperion, mas ainda assim concluiu que ele valia mais do que a dívida respaldada, o que significava que não era necessário nenhum ajuste na alavancagem da Meta.
“A realidade que vemos hoje é que a diferença, mesmo considerando o valor sob estresse, fica mais próxima de zero na maior parte do tempo”, afirmou.