livro revisita personagens das grandes crises financeiras

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Por trás de toda grande crise financeira há um cérebro — mas, quase sempre, duas caras. Foi dessa constatação que nasceu o livro “Aventureiros e Larápios — Histórias de quem abalou ou quase quebrou os mercados”, de Roberto Teixeira da Costa e Fábio Pahim Jr., lançado pela Porfolio Penguin. A obra mergulha nos personagens por trás de alguns dos maiores escândalos do mercado, do português Alves Reis, que abalou Portugal há cem anos, ao americano Sam Bankman-Fried, símbolo do colapso recente no universo das criptomoedas.

Os autores acompanham há décadas os principais episódios e bastidores do mercado financeiro. Teixeira da Costa foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e ingressou, em 1958, na Deltec Investimentos, Crédito e Financiamento, uma das pioneiras do que mais tarde se consolidaria como o mercado de capitais brasileiro, criada por profissionais ligados a casas bancárias de Wall Street.

Já Fábio Pahim Jr. cobre o mercado financeiro há mais de cinco décadas. Foi editorialista do Estadão, dirigiu publicações como a Revista Bovespa e a Revista Abecip e acompanhou reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Capa do livro Aventureiros e Larápios – Histórias de quem abalou ou quase quebrou os mercados (Divulgação/Companhia das Letras)

Em entrevista ao InfoMoney, a dupla defende uma tese incômoda: nenhum sistema regulatório, por mais robusto que seja, consegue conter completamente quem está disposto a burlá-lo.

“A criatividade daqueles que querem burlar a lei é muito maior do que a capacidade do sistema de se policiar”, afirma Teixeira da Costa, que integrou por oito anos o board do International Accounting Standards, órgão independente responsável por criar e atualizar as IFRS, o conjunto de regras adotados em mais de 140 países para padronizar as demonstrações financeiras das empresas. Para ele, nem tudo o que as regras permitem é necessariamente ético — e a legislação, por definição, jamais será exaustiva.

Os autores também lembram que a realidade insiste em imitar a ficção. Tanto este livro quanto o anterior, “Crises financeiras: Brasil e mundo (1929-2023)”, ficaram prontos justamente às vésperas de novos escândalos ganharem as manchetes — o caso Americanas, no primeiro, e o caso Master, no segundo.

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Da ganância que contaminaria os dois lados do balcão à falta de uma cultura mais sólida de mercado de capitais no Brasil, Roberto Teixeira da Costa e Fábio Pahim Jr. falaram ao InfoMoney sobre os personagens mais marcantes do livro, os pontos em comum entre grandes fraudadores e as lições que o mercado brasileiro ainda pode tirar desses episódios.

Confira a entrevista:

InfoMoney: Como a experiência de vocês, individualmente, agregou para que esse livro tomasse forma?

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Roberto Teixeira da Costa: Crises Financeiras no Brasil e no Mundo foi escrito há cerca de quatro anos. Há uma coincidência interessante entre ele e o atual, Aventureiros e Larápios, lançado há cerca de um mês. No livro anterior, fizemos um levantamento histórico das grandes crises que afetaram o Brasil e o mundo, buscando entender por que aconteceram, como aconteceram e qual legado deixaram.

O livro teve boa receptividade, recebeu muitos elogios e poucas críticas negativas, o que nos estimulou a seguir. E uma pergunta aparecia com frequência nas conversas: quem foram as cabeças por trás dessas grandes crises? Seria possível identificá-las? Traçar um perfil básico de como essas pessoas agem e se comportam? Foi a partir daí que começamos este novo trabalho.

Também houve coincidências nos dois casos. Crises Financeiras já estava pronto quando estourou o caso Americanas. Tivemos de correr para incorporar algo. Você se lembra bem: depois da declaração de Sergio Rial sobre inconsistências contábeis, o caso virou uma bola de neve. Mais recentemente, ainda fomos surpreendidos pela Polícia Federal falando em um rombo de R$ 50 bilhões.

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Com o livro atual, aconteceu algo parecido. Ele já estava entrando na gráfica quando veio à tona o caso Master/Vorcaro. Eu e o Fábio pensamos que, se lançássemos um livro sobre crises financeiras sem falar de Vorcaro, a obra sairia incompleta.

Roberto Teixeira da Costa (Divulgação/Companhia das Letras)

IM: Ao buscar pontos em comum entre os responsáveis por essas crises, vocês conseguiram traçar um perfil? Existe um “tipo” por trás dessas fraudes?

Teixeira da Costa: Tentamos identificar traços em comum entre os personagens por trás das crises. Em alguns casos, os responsáveis estavam claramente identificados; em outros, não. Mas, apesar de todo o esforço, não chegamos a um perfil único. O que constatamos é que, por trás dessas crises, há uma plêiade de personagens muito diferentes entre si. Tivemos o cuidado de não encaixá-los numa definição rígida — preferimos deixar essa conclusão para o leitor.

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Um aspecto curioso é que, em quase todos os casos, havia uma espécie de dupla face. Eram pessoas que, de um lado, tinham vida social agradável, eram bem recebidas, cultivavam reputação e, em alguns casos, demonstravam forte vínculo com o mercado de arte.

Foi o caso de Edemar Cid Ferreira. O que ele fez pelo mercado de arte no Brasil foi impressionante: a Bienal dos Quinhentos Anos, o apoio ao Museu de Arte Moderna. Minha mulher, que trabalhou muitos anos no MAM de São Paulo, contava que ele acompanhava pessoalmente a montagem das exposições, tirava o paletó, pegava o martelo e ajudava a pendurar os quadros. É uma característica curiosa, quase bizarra, mas fazia parte do perfil dele.

Fábio Pahim Jr. (Divulgação/Companhia das Letras)

IM: Entre os personagens do livro, quais você destacaria como os mais interessantes?

Pahim Jr.: O primeiro é aquele português que, há cem anos, com menos de 30 anos, praticamente quebrou Portugal: Alves Reis. Quando conheci a história, pensei: como alguém consegue fazer isso? Ele chegou a contratar a emissão de papel-moeda na mesma casa impressora que fabricava as notas portuguesas, na Inglaterra. Falsificou documentos e convenceu o emissor de que tinha autorização para aquilo. Havia, claro, interesse financeiro envolvido. O emissor ganhava muito dinheiro com o trabalho.

Assim, ele colocou em circulação algo equivalente a cerca de 20% do meio circulante de Portugal. Isso desorganizou a economia de tal forma que produziu efeitos também na política, abrindo caminho para Salazar, que permaneceu no poder por décadas. Foi uma fraude de proporções históricas.

Ele era tão fascinante que, quando foi preso e julgado, Fernando Pessoa compareceu durante quatro dias ao julgamento apenas para ouvi-lo. O argumento de Alves Reis era o seguinte: por que só o Banco de Portugal poderia emitir moeda? É claro que esse é o raciocínio de um fraudador, mas chama atenção porque carrega uma lógica interna, por mais torta que seja.

Teixeira da Costa: No livro, voltamos um pouco no tempo para falar também do Barão de Mauá. E há uma lição importante aí: tudo na vida tem o seu momento. Às vezes, você faz algo para o qual o mercado ainda não está preparado, e o ambiente passa a trabalhar contra você. Tudo tem o seu timing.

O barão de Mauá estava muito à frente do seu tempo. Em determinado momento, o patrimônio das empresas dele era maior do que o do Banco do Brasil. Mas também estudamos outro fator: muitos desses personagens cresceram sem construir uma estrutura gerencial capaz de acompanhar essa expansão.

No caso de Mauá, há ainda uma diferença importante: ele tinha dignidade. À medida que cresceu, perdeu o apoio de políticos que antes o ajudavam. O Banco do Brasil deixou de apoiá-lo. Dom Pedro passou a vê-lo com ciúme, porque ele havia se tornado mais conhecido que o próprio imperador. Cortaram o crédito e ele foi perdendo força. Mas quitou suas obrigações. Pagou todo mundo e, depois disso, foi trabalhar em atividade burocrática até morrer. Isso mostra como os perfis podem ser muito diferentes.

IM: Nesses perfis, há algum ponto em comum também do lado das vítimas?

Teixeira da Costa: Sim. Do outro lado, o que destacamos no livro é a ganância. Ela existe nos dois lados. Há a ganância de quem quer crescer demais e a do investidor. Se a média de retorno de mercado é 10% e aparece alguém oferecendo 20%, há algo errado. Mas a pessoa se engana. É o que o Eduardo Giannetti, meu brilhante irmão, chamou de autoengano. O investidor pensa: “Eu sou esperto. Os outros não estão vendo essa oportunidade”. A ganância, de fato, é parte central da equação.

As crises ensinam muita coisa. E uma conclusão que tiro desde a época em que ajudei a criar a CVM é a importância da autorregulação. Por mais deficiente que o sistema seja, ele precisa ser capaz de se autopoliciar. Os bons não podem pagar pelos maus. O Estado não consegue fazer tudo sozinho.

Costumo usar a imagem do sinal de trânsito. Ele surgiu porque as pessoas cruzavam as ruas sem coordenação e batiam umas nas outras. Aí o Estado vem e diz: “Passe daqui”. Mas sempre haverá alguém tentando contornar a regra, dar a volta e passar por trás. É da natureza humana. Por isso, é preciso vigilância constante.

IM: Cada uma dessas crises expôs, de alguma forma, novos usos para golpes já conhecidos — como no caso de Bernie Madoff, cujo esquema sofisticado, na prática, reproduzia a lógica de Ponzi, ou no caso de Sam Bankman-Fried. Na visão de vocês, os mercados aprendem com esses episódios ou estão condenados a repeti-los?

Teixeira da Costa: Há muitos casos atuais que me chamam a atenção. Por exemplo, o valor de mercado de algumas grandes empresas, como SpaceX, Amazon e Nvidia — esta última perto de US$ 5 trilhões. Será que faz sentido pagar esse preço hoje por apostas tão grandes no futuro? As pessoas gostam de pensar: “Eu não apostei no passado, então agora quero apostar no futuro”.

Talvez haja um pouco dessa mentalidade. E existe também um certo processo de autossustentação: o bolo ficou tão grande que o mercado precisa conviver com ele. Mas, para alguém que começou fazendo análise financeira tradicional, projetando fluxo de caixa, trazendo valor presente, comparando múltiplos, há situações em que isso se torna cada vez mais difícil. No caso de cripto, por exemplo: por que determinado ativo valeria mais amanhã? Com base em que fundamentos?

Pahim Jr.: Gosto de ouvir o Roberto porque ele começou muito antes da consolidação do mercado de capitais no Brasil. Eu já o conhecia daquela época. Ele é anterior à Lei 4.728, de 1965, que regula o mercado de capitais. Já estava no mercado antes disso. A experiência dele é única no Brasil.

Nós não temos, no Brasil, a mesma cultura do investidor americano, que aceita o risco de investir em empresas e, eventualmente, perder dinheiro. Mas essa é a regra do jogo: é preciso admitir que se pode perder.

Teixeira da Costa: Outra lição dos meus 60 anos de mercado é que as pessoas mais bem-sucedidas souberam se cercar de gente competente, de pessoas com opinião própria, capazes de contrariá-las. Em quase todas as histórias de fracasso, você encontra o contrário: líderes cercados de “yes, man”, pessoas que têm medo de discordar. Ninguém será realmente bem-sucedido se não abrir mão de parte do poder. É preciso dividir poder. Não existe milagre.

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