Bieber, Angine de Poitrine e a internet que morreu
O show do primeiro final de semana para mais de 130 mil pessoas foi low profile.
E o grande destaque dele foi quando sentou num banco, abriu um MacBook e começou a puxar clipes do YouTube de si mesmo aos 13 anos.
Onde tudo começou.
Bieber harmonizou com a própria voz de adolescente.
Rolou memes.
Pediu músicas pelo chat da transmissão ao vivo.
E mandou uma sequência de hits admirável
A internet se dividiu.
Metade chamou de preguiça.
Metade chamou de genialidade.
Numa era em que cada frame é pensado e cada hook é otimizado, a falta de polimento daquele momento foi quase chocante.
Os vídeos buferizando. O scroll casual. A digitação e a busca ao vivo.
Te fazia sentir que estava vendo algo que não deveria estar vendo.
No bom sentido.
Por que este trecho do show de Bieber repercutiu e faz tanto sucesso?
Ao ponto de o cantor se tornar o artista mais ouvido do planeta algumas depois do Coachella?
E ter feito 21 músicas dele entrarem no Top 200 global do Spotify?
Dono de um talento inegável, Justin Bieber levou milhares de espectadores para um tempo que não existe mais.
Para uma internet que não existe mais.
Porque as redes sociais costumavam ser um lugar para ver algo real.
Hoje são um palco para performers estratégicos.
Bieber lembrou o que acontece quando alguém simplesmente é ela mesma para as câmeras.
Essa ingenuidade não existe mais, e é impossível replicá-la.
Todo mundo sabe hoje o que o botão de upload pode fazer.
Você pode virar milionário.
Pode ficar famoso da noite pro dia.
O peso desse conhecimento mudou o que as pessoas criam.
Quando você sabe qual é o resultado, você otimiza para ele.
Você não compartilha o seu trabalho, você compartilha um produto bem pensado.
É por isso que tanto do que vemos online parece igual.
Não é que as pessoas não sejam mais talentosas.
É que a consciência do que é possível sufocou o instinto de simplesmente compartilhar algo real.
A internet, desde os tempos dos blogs, revelou-se um terreno fértil para artistas independentes venderem o seu peixe.
Essa energia foi o que alimentou o Myspace nos anos 2000, por exemplo.
Uma rede social musical que fez Adele, Lily Allen, Arctic Monkeys e Mallu Magalhães encontrarem seus primeiros fãs sem precisarem de gravadora.
Uma internet concebida para conectar pessoas, não para vender atenção.
As redes sociais pararam de funcionar, como foram concebidas, a partir do momento que o Facebook lançou o feed social baseado naquilo que o algoritmo identificava o que é melhor para você.
A partir dali, seguir um artista não era mais garantia de ver o que ele publicava.
O TikTok escancarou isso de vez: a aba Explorar, somada ao scroll infinito, não te mostra quem você escolheu acompanhar.
Te mostra o que o robô decidiu que vai te prender por mais de cinco segundos.
Surgiram as trends. Os challenges. As dancinhas.
E isso contaminou a forma como a música é feita.
Se não couber num refrão de poucos segundos, não existe.
Se não tiver uma coreografia que viralize, não acontece.